segunda-feira, 22 de março de 2010

Monozigóticos

Desde a barrigada, tudo dividido. Dores, mamadas, bilu-bilu, fraldas e festas. Pra crescer ouvindo, ó, como se parecem; não sei quem é quem; cara de um, focinho do outro. Bem legal ser gêmeo, hem? Viver carregando um espelho a serviço das comparações de toda laia, que se convertem no incômodo esporte predileto das rodas familiares ou não, às vezes chistoso, às vezes macabro, onde sempre aparecem especialistas em semelhanças e diferenças das origens monozigóticas. Mais fácil escapar da difteria, para a qual existe vacina. As alegrias, também, são em dobro. Os dois queriam odontologia. Vestibular muito concorrido. A família em prece, ouvidos no rádio. Um deles é logo o primeiro lugar; e haja gritos, urros, abraços e lágrimas! O outro não sai; e é tristeza, lamento e consolo. Os telefonemas são contidos. Dá pena o choro da avó. A noite se arrasta em meia-alegria, e o sol parece não ter pressa para entregar um novo dia, mas, quando chega, não tarda, a casa explode em gritos e gritos e gritos. Jornal na mão, o outro está lá, e é o segundo. Aquela algazarra ao pé do rádio abafara seu nome. No escrito, com orgulho, todos querem conferir: empataram em primeiro lugar. Gêmeos, de novo.

Nenhum comentário: