domingo, 5 de dezembro de 2010

Noites

O amigo se achega e seu relato pontuado de incertezas tenta compreender a vertigem que brota do abraço inquietante do sofrimento; diz da dor em família ao descobrir os limites da cura nos labirintos da frágil ciência, ante o temor da viagem definitiva para a sobrinha que ainda nem completou seis anos. Não há quem possa se esquivar dos calvários para os quais somos conduzidos pelos laços de sangue, pela cristalina amizade ou mesmo pelo olhar solidário. Nessas horas, o combate se dá com o joelho dobrado pela humildade, o peito aberto em chagas, a mão estendida para o alto, a boca aquecida pelas súplicas. Os nossos são tudo que nos importa. Às vezes não temos poder nenhum contra a angústia de quem sofre ao nosso lado, a não ser ouvir seu canto, estendendo os braços da compaixão, como em Cecília Meireles:

"Um pássaro pia sob a chuva noturna.
Que socorro pode ter?
São muitos os fios d'água,
muitas as folhas das árvores,
muitas as trevas da noite:
― de que lado vem a pequena voz assustada?
Talvez encontre em si mesmo o rumo certo.
Não temos poder nenhum contra a sua angústia.
Talvez haja sobre-humanas caridades
para o sofrimento das vidas inumanas.
Por que apenas os homens ousariam esperar compaixões?
E de que tamanho será uma noite como esta
para um pássaro que sofre, entre águas e trevas?"

2 comentários:

Não sei quem disse...



Como sabem, não publicamos comentários anônimos, mas o que segue abaixo, encaminhado para a esta postagem, merece um registro:

“Acho que estás sério candidato a viado, postando esses versinhos e poemas sem graça.”

Não sei se o comentarista não teve capacidade de entender o texto ou o contexto. Nunca sofreu? Nunca foi solidário ou recebeu solidariedade no sofrimento? Paciência, vidas são diferentes... (Ou a intenção era tentar ofender?)

flor disse...

Quanta leveza pra falar de um fato tão triste!
Quanta sensibilidade para captar o sofrimento alheio!
Tenhamos fé.
E sobre o comentário anônimo... tenhamos fé e compaixão, pois Deus faz curas tanto para dores como para ignorância.

Juarez, leve também meu abraço ao seu amigo.

Flor.