sexta-feira, 23 de maio de 2008

A viagem

Conhecemos D. Elza, em Mirador, neste feriado de corpus christi (22), preparando saladas para o almoço de despedida da oficiala Luana. Voz e conversa firmes, pele lisa, cabeleira alva, nada em seu andar revelava 92 anos, a razão de repetidos “incrível, mas não parece!”


A filha se apressou nas confissões: acorda cedo, prepara beijus, vai para a horta. E D. Elza não escondia a satisfação pelas proezas que lhe rendiam as exclamações.


― Vou lhes mostrar um presente que ela me deu agora, tornou a filha, e abriu uma grande toalha de mesa feita em miúdos pontos de croché. As entendidas correram as mãos, elogiaram o motivo e as emendas tão delicadas. Ela, 92 anos, mais sorrisos.


― Já fez uma para cada neto! - acrescentou.

― Pra mim não faço mais nada. Já estou com tudo pronto para a viagem.

― E para onde a senhora vai? - curiosa indagação.

― Ora, pra onde todo mundo viaja!


Pausa, risos, e uma sensação diferente me alimentou durante o almoço. Pouco nos preparamos para a viagem, até porque não sabemos o dia e a hora, se antes ou depois dos 92. Quase sempre esquecemos que somos passageiros a caminho da plataforma... e qual a bagagem.


Um comentário:

sobre a postagem disse...

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Sandro Lobato:
É amigos, "a vida é uma cebola que se descasca chorando" (Armand
Masson) e quanto a nossa inapelável "viagem" fica a pergunta
incômoda: quando?
.