segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um andor para a história

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26 de Agosto, sábado. Pouco depois das 8 horas, policiais da tropa de choque, com suas armas, bombas de gás e máscaras, fecham a barragem do Bacanga. O aparato amanhece de prontidão, com polícia federal e Dops no plantel.


A ordem é conter algumas dezenas de estudantes que acabam de sair do Campus da Universidade Federal em direção à Catedral Metropolitana, no centro de São Luís. O clima é tenso. A linha de ônibus do Campus e as aulas da UFMA estão suspensas por ordem da véspera. Todos que cruzam a barragem são submetidos à revista. Nem os jornalistas escapam. De pontos estratégicos, agentes do SNI tudo fotografam.


Faixas revelam a intenção dos estudantes: “Caminhada pelo Peregrino da Paz”, “O caminho da paz só se faz com justiça e direitos iguais”. Os folhetos são rapidamente apreendidos, contendo músicas de Luiz Gonzaga, Geraldo Vandré, Baiano e os Novos Caetanos, Pe. Zezinho e Roberto Carlos, cantadas pelos estudantes, que sentam no meio-fio, acompanhados por um violão, fazendo eco no pequeno carro de som alugado do Heracias.


Depois de quase uma hora, os estudantes se dispersam sem nenhum confronto físico com a polícia, mas, viaturas policias sitiam pontos estratégicos da cidade, durante todo o dia. No meio da tarde, os estudantes voltam a se reunir na Igreja da Sé, onde corre a notícia da escolha do papa João Paulo I (Albino Luciani).


Esses fatos acontecem em 1978. O episódio antecede em um ano a Luta da Meia-passagem, de setembro de 79. O movimento estudantil, liderado por integrantes de grupos de jovens católicos, com uma caminhada, quis prestar homenagem ao Papa Paulo VI, morto em 06/08/78, conhecido como “O Peregrino da Paz”.


Faltam sete meses para o fim do mandato do presidente Geisel e do governador Nunes Freire. Fala-se em abertura política, vingam os movimentos pela anistia, pelos direitos humanos, pela reorganização da UNE. Os serviços de segurança continuam a desconfiar de todos que pensam, falam e se reúnem; em tudo, vêem “infiltrados”.


Esses fatos foram publicados em todos os jornais de São Luís, em 27/08/1978, dividindo as manchetes com a escolha do novo Papa. “O Imparcial”, na página 3, anotou o seguinte diálogo de seu repórter com o então Subcomandante da PMMA, Cel. Riod:


― Mas coronel porque tanto policiamento para conter uma caminhada para homenagear o Papa?

― Isso não é nada. Acontece que existe uma Portaria do Ministério da Justiça proibindo passeatas. E o Secretário de Segurança autorizou a polícia a não deixar que esse tipo de manifestação seja realizada.

― Mas os estudantes estão dizendo aí que não é uma passeata política, mas uma caminhada de cunho religioso. Se é isso, por que a Polícia permite a realização de procissões e ainda dá segurança?

― Mas isso aí não é procissão. Se fosse, eles traziam um andor. E era permitido.


Há 30 anos, esse foi o batismo de nossa geração contra forças de repressão do regime militar. Uma simples caminhada de poucas dezenas de estudantes, cantando MPB, em homenagem ao Papa Paulo VI, brecada porque “faltava um andor”.


João Paulo I morreu um mês depois, em 28/09/1978. Geisel, em 1996. Nunes Freire, faz tempo. A ditadura não duraria para sempre. Para os que não viveram suas aflições, ficaram os registros, a História.

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