segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Maquiavel e o Príncipe

Os sonhos são terreno de mistérios. Decifrá-los, conferiu a José poder e prestígio entre faraós, alimentou fogueiras da Inquisição, ajuntou polêmicas freudianas e, até hoje, rende cobres a doutores e falastrões. Na madrugada deste domingo, enquanto o despertador não tocava, fui consumido por cenas que me agitavam qual pesadelo. Recordo-as, mais ou menos, assim:


“No final de uma estrada havia uma casa com sete janelas. Sete rostos que se mimetizavam, às vezes mais. Confundiam-se em vozes, anunciavam repartir despojos, encenavam gestos. Pareciam amigos. Suspiravam como inimigos. Ao centro, uma jóia fulgurante: a alma da disfarçada contenda, após um ímprobo acordo rompido na repartição da res. Um conciliábulo inconcluso. A desconfiança como princípio, a traição recíproca como trunfo. Um jogo de cartas, qual pôquer viciado. Em volta, olhares curiosos, temores e orações. Um São Judas Tadeu debulhado em pares de sôfregas mãos. Bicas de suores e vertigens latejantes. Cada lance de cartas soava um tiro no peito. Não se esgrimia gesto em vão. Nenhum dos banqueiros queria entregar o jogo. Quando tudo parecia perdido, o fraco se fez forte em sua vingança. Não se houve com o tesouro, mas não o perdeu por completo. Bem onde doía a traição remoeu-se em silêncio maquiavélico “vade retro: se não o levo, não me tomas, outrem o desfrutará”. E atirou a jóia aos pés de Lúcia, Jacinto e Francisco. Os pastorinhos levaram-na até a mulher que se retirava feliz com o presente inesperado. Depois das adagas fincadas e da pedra perdida, os sorrisos de conveniência ficaram contidos, anunciando secretos verás. Mais adiante, a cena angelical de uma mãe dando papa ao filhinho, fazia crescer a esperança num mundo de igualdade, sem nocivos privilégios, em que cada um vale aquilo que conquista pelo seu próprio trabalho. Um pouco antes de tudo, porém, uma peça inspirada em Shakespeare, com toques de Nelson Rodrigues, revelava um tratado sobre a hipocrisia dos falsos julgadores. Alguma pichação meio apagada, numa parede lateral da cena, fazia lembrar Rui Barbosa “de tanto... triunfar as nulidades”. O despertador tocou e acordei balbuciando “de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Vencidos os ritos matinais, um pouco depois, já encarava as seis horas de asfalto rumo a Mirador. Hoje, só um pouco de literatura. Amanhã, quando tivermos detalhes, faremos a postagem sobre a sessão do Conselho Superior. Ao que soubemos, a colega Fátima Travassos foi promovida para a 3ª Procuradoria Criminal e o colega Alexandre Rocha para a 3ª Promotoria de Açailândia. A remoção para João Lisboa foi outra vez adiada.
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3 comentários:

paula disse...

Não esmureça Celso. O importante é o reconhecimento do seu trabalho pelos colegas e pela comunidade. Que triste ocaso deste Conselho. Entretanto, estão de parabéns os conselheiros Selene, Paulo e Francisco.

Teomario Serejo Silva disse...

"COLEGA". Segundo o dicionário brasileiro GLOBO, a expressão significa "pessoa que, em relação a outra ou outas, pertence à mesma classe, corporação ou comunidade; pessoa que exerce a mesma profissão ou as mesmas funções que outrem; companheiro; condiscípulo. ( do latim collega.)".
Trago o significado da expressão para dizer que nesta segunda-feira, dia 05/11/2007, ao me fazer presente à reunião do CSMP, fiquei boquiaberto ao ver o Exmº Sr. Conselheiro, Procurador de Justiça José Henrique, ao ler o seu voto no processo em que foi relator que tinha por sindicado o colega Juarez Medeiros Filho, tercer críticas ao fato deste ter se referido aos integrantes da comissão sindicante como "colegas". Disse o senhor procurador de justiça que essa forma de referência aos integrantes da comissão conficurou-se em um desrespeito. Disse que com isso não está reivindicando deferências.
Acredito que tenha faltado conhecimento do significado da expressão, para que se chegasse a tal conclusão. Se não foi isso, só pode ter outro objetivo. Entretanto, colegas, isso não ocorrerá. Somos todos membros do MINISTÉRIO PÚBLICO, estamos uns na primeira outros na segunda instância, apenas isso, não existe hierarquia funcional entre nós, temos os mesmos poderes, direitos e deveres. É bom ter isso sempre em mente, para não cairmos no equívoco de cobranças inadequdas e desprovidas de sustento.
Nessa mesma reunião o colega José Henrique se manifestou indignado, ao ver a colega Maria de Fátima Travassos indagar aos conselheiros se esses se viam desprovidos de impedimentos ou suspeição para procederam votação de promoção, haja vista alguns candidatos inscritos estarem assumindo funções de confiança junto à Adm. Superior.
Ora, os institutos da suspeição e impedimento são vigentes no Ordenamento Jurídico Brasileiro. Será que os integrantes do CSMP estão insentos deste questionamento? É claro que não. Se a intenção foi causar um sentimento de temor, isso não ocorreu comigo e certamente não acometerá os demais COLEGAS.

Antônio disse...

De certo o Senhor Procurador tem razão, haja vista seu comportamento, não deve se considerar colega dos demais Promotores, quiçá até pertencer a mesma Instituição que o colega Juarez.